Por 13 votos a 2, vereadores aprovam perda do mandato após sessão de quase 11 horas; defesa anuncia recurso à Justiça e contesta legalidade do processo
OURINHOS — Em uma das noites mais tensas da história política recente do município, a Câmara Municipal cassou o mandato do prefeito afastado Guilherme Andrew Gonçalves da Silva (Podemos). A decisão foi tomada no início da madrugada desta quinta-feira (3), após uma sessão de julgamento que se estendeu por quase 11 horas.
O resultado foi contundente: 13 vereadores votaram pela cassação e apenas dois foram contrários — João Gonçalves (PP), irmão de Guilherme, e Santiago de Lucas Ângelo (Cidadania).
Com a aprovação do Decreto Legislativo nº 3/2026, a perda do mandato produz efeitos imediatos. Alexandre Zóio (PL), que já exercia interinamente o comando do Executivo, deverá assumir oficialmente o cargo.
TRÊS PONTOS DA DENÚNCIA TERMINAM EM 13 A 2
A sessão começou na tarde de quarta-feira (2) e seguiu os procedimentos previstos na Lei Orgânica Municipal, no Regimento Interno da Câmara e no Decreto-Lei Federal nº 201/1967.
Os vereadores analisaram três enquadramentos de infração político-administrativa apresentados no relatório final da Comissão Processante. Todos foram aprovados pelo mesmo placar: 13 votos a 2.
Entre os pontos estavam a acusação de prática ou omissão de atos em desacordo com a legislação e a alegada negligência na defesa de bens, rendas e interesses do município.
Guilherme não compareceu ao plenário e foi representado por sua defesa.
O processo político-administrativo avançou enquanto o então prefeito já permanecia afastado do cargo por decisões judiciais relacionadas a questionamentos sobre sua administração.
GUILHERME REAGE NAS REDES E ELEVA TEMPERATURA POLÍTICA
Enquanto o julgamento ocorria, Guilherme Gonçalves publicou vídeos, áudios e acusações contra vereadores nas redes sociais.
Entre os parlamentares mencionados estavam Vadinho, Marcinho e Raquel Spada. Guilherme afirmou, entre outras alegações, que integrantes da Câmara teriam solicitado cargos ou favores ao Executivo e sustentou que estaria sendo alvo de retaliação política.
As declarações foram feitas pelo agora ex-prefeito e não representam conclusão judicial sobre os vereadores citados.
A defesa de Guilherme também deixou claro que a disputa não terminou.
“Encerra-se uma etapa na Câmara e abre-se uma no Judiciário.”
O advogado Joel de Matos Pereira afirmou que pretende questionar judicialmente o procedimento, especialmente em relação ao devido processo legal, contraditório, ampla defesa e formas de intimação utilizadas durante a Comissão Processante.
PRESIDENTE DA CÂMARA REBATE DEFESA: “CUMPRIMOS TODOS OS RITOS”
O presidente da Câmara, Cícero Investigador (Republicanos), afirmou que o Legislativo trabalhou para evitar qualquer irregularidade capaz de provocar a anulação do julgamento.
“Nós cumprimos todos os ritos. Me debrucei junto com os procuradores jurídicos e a comissão para que não houvesse nenhuma irregularidade ou risco de nulidade”, afirmou.
Segundo Cícero, o resultado também expressaria uma cobrança existente sobre a administração municipal.
STF MANTÉM AFASTAMENTO EM OUTRA FRENTE JUDICIAL
Horas antes da cassação, Guilherme também sofreu uma derrota no Supremo Tribunal Federal.
O STF rejeitou recurso apresentado em procedimento relacionado à decisão que havia determinado seu afastamento cautelar do cargo.
Entre os elementos discutidos no processo judicial aparecem apontamentos sobre dívida previdenciária superior a R$ 28,8 milhões, comprometimento elevado das receitas municipais, ausência de repasses de valores consignados descontados de servidores e problemas relacionados aos serviços de saúde e educação.
Esses elementos integram processos e alegações levados ao Judiciário e devem ser tratados dentro das respectivas ações. A decisão do Supremo, por sua natureza processual, não equivale a um julgamento definitivo de todas as acusações envolvendo a administração.
FIM DE UM GOVERNO E INÍCIO DE UMA NOVA BATALHA
A votação encerra, no Legislativo, um capítulo que mergulhou Ourinhos em uma das maiores crises políticas de sua história recente.
Guilherme Gonçalves deixa a Prefeitura após aproximadamente um ano e seis meses de gestão, enquanto sua defesa prepara uma nova ofensiva no Judiciário para tentar questionar a cassação.
Agora, o foco político se desloca para Alexandre Zóio e para a reorganização da Prefeitura, enquanto os desdobramentos judiciais prometem manter o caso no centro do debate público.
COMENTÁRIO — JP JORNAL O POPULAR
A cassação de um prefeito não pode ser tratada como uma simples vitória de um grupo político sobre outro. É uma decisão extrema, com reflexos diretos sobre a administração pública e sobre milhares de moradores.
A Câmara tomou sua decisão por ampla maioria. A defesa contesta o processo e recorrerá à Justiça. É justamente aí que está o papel de cada instituição: o Legislativo julga dentro de suas competências e o Judiciário analisa eventuais ilegalidades quando provocado.
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