CAMARINHA VOLTA A VENDER 2028 COMO CERTEZA, MAS CONSTITUIÇÃO CONTRADIZ DISCURSO; FABIANA VAI DE PROJETO A DEPUTADA A POSSÍVEL “ARMADILHA”

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Ex-prefeito afirma estar “liberado” para concorrer à Prefeitura de Marília, embora eventual candidatura dependa diretamente da situação do filho Vinícius Camarinha; depois de projetar Fabiana para disputa estadual, agora diz que não quer vê-la “entrar em uma armadilha”

MARÍLIA — José Abelardo Camarinha voltou a apresentar ao eleitorado de Marília uma possibilidade política futura como se já estivesse definida.

Nesta sexta-feira (14), o ex-prefeito declarou publicamente:

“Pra prefeito eu tô liberado e faço o que o povo pede.”

A frase foi usada por Camarinha ao falar sobre uma eventual candidatura à Prefeitura de Marília em 2028. O problema é que, juridicamente, não existe hoje candidatura garantida de Abelardo para prefeito em 2028.

Para o JP Jornal O Popular, a declaração é, no mínimo, enganosa ao eleitor quando apresentada sem explicar a restrição constitucional existente.

A CONSTITUIÇÃO COLOCA UM FREIO NO DISCURSO

O prefeito de Marília é atualmente Vinícius Camarinha, filho de Abelardo, eleito para o mandato de 2025 a 2028.

A Constituição Federal estabelece a chamada inelegibilidade reflexa, que alcança parentes do chefe do Poder Executivo até o segundo grau dentro da mesma circunscrição eleitoral. Pai e filho são parentes de primeiro grau.

Isso significa que, se Vinícius Camarinha permanecer no exercício da Prefeitura dentro dos seis meses anteriores à eleição de 2028, Abelardo não poderá simplesmente disputar a Prefeitura contra o próprio filho.

Para que o cenário seja diferente, seria necessário analisar as condições existentes naquele momento, inclusive eventual afastamento de Vinícius dentro do prazo constitucional e todas as demais condições de elegibilidade.

Portanto, dizer simplesmente “estou liberado” passa ao eleitor uma certeza que a legislação, hoje, não permite dar.

Uma coisa é querer ser candidato. Outra, muito diferente, é poder registrar a candidatura.

2026 TAMBÉM FOI VENDIDO COMO PROJETO

O discurso chama ainda mais atenção porque Camarinha passou meses alimentando publicamente a possibilidade de voltar à Assembleia Legislativa nas eleições de 2026.

Mas o projeto não avançou.

Na quinta-feira (13), o TRE-SP julgou o processo nº 0600251-63.2025.6.26.0000, apresentado pelo próprio Abelardo Camarinha como Requerimento de Declaração de Elegibilidade. A pauta oficial confirma Camarinha como requerente, a Procuradoria Regional Eleitoral como impugnante e o juiz Regis de Castilho como relator.

Segundo informações divulgadas após o julgamento, a decisão foi unânime e o Tribunal extinguiu o pedido sem analisar o mérito, sem conceder a Abelardo a declaração antecipada de elegibilidade que buscava. O próprio ex-prefeito confirmou depois que não disputará as eleições de 2026.

O JP Jornal O Popular havia noticiado o resultado informado como 7 votos a 0, ressalvando, desde a publicação inicial, a necessidade de confirmação formal pelo acórdão.

Ou seja: primeiro veio o discurso sobre 2026. A candidatura não aconteceu.

Agora, poucas horas depois do novo revés judicial, já surge 2028 como nova promessa política.

E FABIANA? DE PROJETO PARA DEPUTADA A POSSÍVEL “ARMADILHA”

Outro trecho da entrevista chamou atenção.

Camarinha vinha projetando politicamente sua esposa, a vereadora Fabiana Camarinha (Podemos), como possível candidata a deputada estadual.

Agora, porém, o próprio Abelardo admite que ela poderá desistir.

Segundo ele, Fabiana deverá conversar nesta segunda-feira (17) com a presidente nacional do Podemos, Renata Abreu, antes de decidir se disputará ou não uma cadeira na Assembleia Legislativa.

E Camarinha foi além:

“Não vou deixar minha mulher sofrer. Ela não é obrigada a ser deputada. Ela vai entrar em uma armadilha.”

A declaração representa uma mudança importante no tom político.

Fabiana foi eleita vereadora de Marília em 2024.

Depois da eleição municipal, seu nome passou a ser colocado no tabuleiro para uma candidatura estadual. Agora, às vésperas da definição partidária, o próprio marido fala em sofrimento e “armadilha”.

Se a candidatura era um projeto tão seguro, por que agora virou uma “armadilha”?

Essa é uma pergunta política legítima.

ENTRE 2026, FABIANA E 2028, DISCURSO MUDA — MAS O OBJETIVO CONTINUA SENDO O PODER

A sucessão de declarações mostra um Abelardo Camarinha que continua tentando ocupar o centro do debate político de Marília.

Quando sua candidatura para 2026 deixou de ser uma possibilidade concreta, o discurso passou imediatamente para 2028.

Quando a candidatura de Fabiana começa a enfrentar uma decisão política real, o próprio Camarinha passa a dizer que não permitirá que a esposa “sofra”.

Ao mesmo tempo, aumentaram as críticas direcionadas ao governo comandado pelo próprio filho.

É legítimo discordar de um governo. É legítimo romper politicamente. É legítimo querer voltar às urnas.

O que não é razoável é apresentar ao eleitor como certeza aquilo que juridicamente ainda depende de uma série de condições.

COMENTÁRIO — JP JORNAL O POPULAR

Abelardo Camarinha precisa entender que vontade política não altera a Constituição.

Ao dizer que está “liberado” para ser prefeito em 2028 sem explicar que seu próprio filho ocupa a Prefeitura e que existe uma regra constitucional de inelegibilidade por parentesco, Camarinha entrega ao público apenas metade da história.

E meia verdade, na política, pode produzir uma impressão completamente diferente da realidade.

O eleitor já ouviu falar de candidatura de Abelardo em 2026. Não aconteceu.

Ouviu falar de Fabiana para deputada. Agora o próprio Abelardo diz que pode ser uma “armadilha”.

E já começa a ouvir sobre Abelardo para prefeito em 2028.

Política não pode ser feita apenas de anúncios, ameaças de candidatura e discursos para permanecer no centro das atenções.

O tempo passa. Governos passam. Lideranças se renovam. Ninguém possui mandato vitalício sobre uma cidade.

Abelardo tem uma longa trajetória na política de Marília e isso faz parte da história. Mas história não é escritura de propriedade sobre o poder.

Se quiser disputar novamente, terá de cumprir as mesmas regras impostas a qualquer cidadão.

Até lá, é importante deixar claro:

ABELARDO PODE QUERER SER CANDIDATO EM 2028. DIZER HOJE QUE ESTÁ “LIBERADO” É OUTRA HISTÓRIA.

E o JP Jornal O Popular continuará confrontando discurso político com documentos, decisões judiciais e aquilo que efetivamente estabelece a lei.

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